Uma investigação aberta pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul colocou a vereadora Ana Portela no centro de um tema que, em tese, costuma ser combatido com discursos firmes na tribuna: o nepotismo.
A 29ª Promotoria de Justiça instaurou uma Notícia de Fato para apurar a possível nomeação de pessoas com vínculos familiares para cargos comissionados no gabinete da parlamentar. A apuração começou após uma representação protocolada na Ouvidoria do órgão no fim de março deste ano. Por enquanto, trata-se de investigação preliminar, fase em que o Ministério Público busca entender se há ou não irregularidades.
Entre os nomes citados estão Tiago Angelino da Silva Souto, apontado como cunhado, Márcia Cruz da Silva, indicada como concunhada, e Pedro Fernandes Pereira Mendes, descrito como primo. Uma composição que, se confirmada, sugere que o conceito de “trabalho em equipe” pode ter ganhado um significado um pouco mais… familiar.
Dados do Portal da Transparência da Câmara Municipal mostram que os três ocupam cargos no gabinete. Márcia Cruz atua como Assessora Parlamentar I, com remuneração líquida superior a R$ 10 mil. Pedro Fernandes exerce a função de Assistente Parlamentar VI, com salário próximo de R$ 8 mil. Já Tiago Angelino ocupa o posto de Chefe de Gabinete, com vencimentos na faixa de R$ 9,7 mil.
Diante dos indícios apresentados, o promotor Jorge Ferreira Neto Júnior solicitou informações ao presidente da Câmara, Epaminondas Papy Vicente Silva Neto. Entre os pedidos estão fichas funcionais, atos de nomeação e esclarecimentos sobre os mecanismos internos de controle contra nepotismo. A própria vereadora também foi oficiada para informar se há vínculo de parentesco e se houve declaração formal no momento das nomeações.
O caso conta ainda com apoio do GECOC, que deve auxiliar na verificação dos possíveis laços familiares. Até o momento, não há resposta oficial registrada nos autos.
A situação surge em um momento curioso da trajetória política da vereadora. Pré-candidata a deputada estadual, Ana Portela tem intensificado sua presença e buscado aproximação com o eleitorado conservador, especialmente o segmento bolsonarista. Um campo político que costuma adotar, com frequência, o discurso de combate a privilégios e defesa da meritocracia.
Nesse contexto, a investigação adiciona um componente delicado à narrativa. Afinal, na política, defender princípios é uma coisa. Conviver com questionamentos sobre a aplicação deles dentro do próprio gabinete é outra bem diferente.
Por ora, o caso segue em fase inicial. Mas, como costuma acontecer, a combinação entre discurso e prática tende a ser observada com atenção redobrada pelo eleitor. E, nesse cenário, cada detalhe conta.

