A 22ª edição da Parada da Cidadania e do Orgulho LGBTQIAPN+ aconteceu neste sábado em Campo Grande. O evento começou às 16h, com concentração na Praça do Rádio Clube, e seguiu em caminhada pela Rua Dom Aquino até a Avenida Calógeras, retornando pela Rua Barão do Rio Branco. O trajeto foi encerrado às 18h, novamente na Praça do Rádio.
Apesar da tradição do evento, o número de participantes ficou abaixo do esperado. Menos de 700 pessoas acompanharam o cortejo com trio elétrico, bem distante das multidões que outras capitais brasileiras costumam registrar em ocasiões semelhantes.

Entre bandeiras coloridas e fantasias seminuas, também chamaram a atenção alguns símbolos destoantes do tema central da Parada. Além das bandeiras do tradicional arco-íris utilizado para representar a diversidade, chamaram a atenção a bandeira da Palestina e cartazes com a foice e o martelo, símbolo do comunismo. A presença desses elementos levanta um ponto de contradição que não pode ser ignorado. Historicamente, regimes comunistas perseguiram e criminalizaram a homossexualidade, resultando em prisões, exílios e até execuções. Da mesma forma, a Palestina e outros países de maioria muçulmana mantêm leis que criminalizam relações homoafetivas ou convivem com forte repressão social e religiosa contra a população LGBTQ+. Em Gaza, por exemplo, relações entre homens podem render até dez anos de prisão. Assim, enquanto no Brasil a comunidade desfila em busca de respeito e direitos, em muitos dos lugares representados pelas bandeiras hasteadas na passeata a própria existência de pessoas LGBTQ+ é negada ou punida pelo Estado.
Durante a caminhada, também houve espaço para discursos políticos. Do alto de um trio elétrico, um dos participantes afirmou: “A gente precisa dizer o seguinte, que a cidade de Campo Grande é nossa, que a cidade de Campo Grande não tolerará golpista, que lugar de golpista é na cadeia. A terra do agro e do ogro não tem mais espaço para o preconceito”. A fala foi interpretada como uma crítica direta ao agronegócio, setor de maior peso econômico de Mato Grosso do Sul, e aos apoiadores de direita ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

A noite de encerramento da Parada, que aguarda um publico maior queo que compareceu durante o dia, terá como principal atração a cantora Wanessa Camargo, contratada por R$ 150 mil, valor custeado com verba pública. O evento foi organizado pela Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS).
O contraste entre a baixa adesão do público, o uso de símbolos que em nada contribuem para a causa da diversidade e a contratação milionária de artistas com recursos públicos abre espaço para questionamentos sobre os rumos e prioridades de um movimento que, apesar de legítimo, precisa lidar com incoerências e contradições internas.

