Se verba indenizatória fosse sinônimo de criatividade, o vereador Fábio Rocha (União Brasil) já estaria cotado para o prêmio Nobel de Inovação Legislativa. Mas, como se trata de dinheiro público, a situação exige outro tipo de análise, aquela que envolve transparência, responsabilidade e, claro, uma boa lupa.
De acordo com documentos levantados pelo portal É o Mundo, e disponíveis no Portal da Transparência da Câmara Municipal de Campo Grande, Fábio Rocha repassou quase R$ 12 mil a duas empresas que, digamos, fazem parte de um universo de negócios… exóticos.
Alugando carro de quem vendia marmita (e tinha histórico familiar agitado)
No dia 28 de fevereiro de 2025, o gabinete do vereador emitiu dois recibos que somam R$ 7.650,00 para a empresa Rogbel Comércio e Serviços, cujo nome soa sofisticado, mas cuja atividade principal registrada na Receita Federal é o fornecimento de alimentos preparados. É isso mesmo: a empresa que deveria servir quentinhas agora aluga carros para vereador. Um caso notável de “mobilidade alimentar”?

A cereja do bolo é que a empresa é controlada por Adailton Angerames Sotelo, cujo sobrenome ganhou notoriedade em 2015, quando três membros de sua família foram presos por tráfico de drogas em Campo Grande, segundo revelou reportagem do Midiamax. Embora não exista qualquer acusação formal contra o atual proprietário, a ligação histórica familiar não passou despercebida. Afinal, como diria o senso comum: onde há fumaça, é bom perguntar de onde veio o fósforo.
Publicidade relâmpago: agência novata abocanha contrato
Mas Fábio Rocha não para por aí. Em março de 2025, o parlamentar destinou R$ 4.500,00 à empresa Mídia Light LTDA, uma agência de publicidade fundada em abril de 2023, com capital social de R$ 50 mil e pouca (ou nenhuma) bagagem no mercado. A justificativa foi a produção de conteúdos – embora a estrutura da empresa seja, digamos, modesta. O que se sabe é que em menos de dois anos de existência, a agência já se tornou uma fornecedora do gabinete do vereador. Acelerada ela, hein?

Tem meu rosto, mas não é meu!
E, como o show da verba pública não pode parar, o parlamentar também ganhou holofotes por destinar R$ 50 mil de recurso para o Esquadrão da Juventude, projeto social fundado por ele mesmo, mas que hoje está em nome de sua cunhada.

Apesar de sua imagem estar na fachada da entidade e nas redes sociais do projeto, o vereador garantiu que desde 2015 não faz parte da diretoria. “Era um compromisso que eu tinha até ser eleito de o projeto poder receber recurso só depois, para provar para as pessoas que é possível começar um trabalho sem emendas”, declarou ao Campo Grande News em matéria anterior.
Um verdadeiro mártir da moralidade parlamentar – que, apesar da promessa, não se furtou em beneficiar um projeto que continua, vejam só, coladinho à sua imagem.
Um padrão ou apenas coincidências?
Embora cada contrato isoladamente possa ser legal, a repetição de vínculos com empresas sem histórico consolidado ou com antecedentes familiares polêmicos começa a desenhar um padrão no mínimo curioso. “Quando há repetição de contratos com empresas sem histórico sólido ou com passados polêmicos, é dever do Ministério Público e da sociedade questionar”, afirmou um analista legislativo que preferiu não ser identificado. E quem pode culpá-lo?
O outro lado
Enquanto isso, o eleitor observa – e espera que a verba indenizatória volte a ser usada com a dignidade e a responsabilidade que o cargo exige. Porque, se quiserem continuar misturando marmita com aluguel de carro e publicidade de última hora, o mínimo que se espera é que venham acompanhados de bons argumentos… e notas fiscais impecáveis.
A reportagem respeita a presunção de inocência, o direito ao contraditório e a liberdade de expressão, e deixa o espaço aberto para manifestação do vereador Fábio Rocha e das empresas citadas.
Ao ser procurado pela reportagem do Fato67 para prestar esclarecimentos sobre as contratações com recursos da verba indenizatória e o repasse ao projeto Esquadrão da Juventude, o vereador Fábio Rocha não retornou nosso contato até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

