Projeto de concessão da ferrovia prevê quase R$ 35 bilhões em investimentos e será ofertado em blocos para ampliar concorrência.
O projeto de concessão da ferrovia Malha Oeste entrou em uma fase decisiva e começou a ser oficialmente apresentado ao mercado. Com investimentos estimados em quase R$ 35 bilhões, o corredor ferroviário que liga Corumbá (MS) a Mairinque (SP) passará a ser ofertado a investidores nacionais e internacionais por meio de um roadshow fechado organizado pelo governo federal. A iniciativa deve atrair, principalmente, grupos chineses e brasileiros interessados em grandes projetos de infraestrutura.
A informação foi confirmada pelo secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, em entrevista ao Correio do Estado durante evento recente. Segundo ele, o Ministério dos Transportes e a Secretaria Nacional de Ferrovias concluíram o projeto técnico e iniciam, já na próxima semana, a apresentação estruturada do ativo ao setor privado.
“O ministro Renan [Filho] disse, junto ao secretário nacional de ferrovias, que o projeto está pronto. Nos dias 9 e 10, eles vão fazer o primeiro roadshow para apresentar a ferrovia a investidores. Não será um evento aberto, apenas para convidados, possivelmente chineses e brasileiros”, afirmou Verruck.
A estratégia representa uma mudança na condução do projeto. Em vez de lançar diretamente o edital de leilão, o governo optou por testar previamente o apetite do mercado, ajustando o desenho da concessão conforme o interesse demonstrado pelos investidores.
Além do roadshow nacional, Campo Grande receberá, no dia 5 de março, uma apresentação oficial do projeto. O encontro reunirá representantes dos governos federal e estadual, além de potenciais interessados, reforçando o protagonismo de Mato Grosso do Sul na articulação da retomada da ferrovia.
De acordo com Verruck, o cronograma segue avançando e a expectativa é que o projeto chegue à B3 ainda neste ano. “No dia 5 de março, haverá uma reunião em Campo Grande para apresentação do projeto. O ministro também informou ao governador que a expectativa é levar o leilão à B3 em novembro”, disse.
Durante o lançamento da pedra fundamental de um ramal ferroviário de 47 quilômetros em Inocência, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, também reforçou o otimismo do governo. “Em novembro deste ano, tudo dando certo, estaremos na B3, em São Paulo, festejando o sucesso do leilão da Malha Oeste, que vai revitalizar a ferrovia entre Três Lagoas e Campo Grande”, afirmou, em discurso no canteiro de obras da fábrica de celulose da Arauco, avaliada em US$ 4,6 bilhões.
Um dos principais diferenciais do projeto é o modelo de concessão. O leilão não será realizado como um pacote único. A ferrovia será ofertada em blocos independentes, permitindo que os investidores escolham trechos específicos conforme sua estratégia e capacidade financeira.
O projeto completo abrange o trajeto entre Corumbá e Mairinque, dividido em três grandes blocos. Assim, uma empresa poderá optar, por exemplo, por investir apenas no trecho entre Campo Grande e Ribas do Rio Pardo, sem assumir toda a malha.
“Não é uma divisão por fases, é um modelo em blocos. O setor privado pode dizer: eu só quero investir de Campo Grande até Ribas do Rio Pardo. O total do investimento é de quase R$ 35 bilhões, considerando todo o trecho de Corumbá até Mairinque”, explicou Verruck.
A avaliação do governo é que o fatiamento reduz riscos, amplia a concorrência e torna o projeto mais atrativo, especialmente em um cenário de custos elevados de capital e maior seletividade dos investidores em obras de grande porte.
A retomada da Malha Oeste é considerada estratégica para Mato Grosso do Sul e para o País. A ferrovia tem papel central na integração logística do Centro-Oeste, no escoamento da produção agroindustrial e mineral e na conexão com corredores de exportação.
Atualmente, grande parte da produção estadual depende do transporte rodoviário, o que eleva custos e reduz competitividade. A modernização da ferrovia é vista como essencial para reduzir gargalos logísticos, atrair novos investimentos industriais e fortalecer a inserção do Estado nas cadeias globais.
O governador Eduardo Riedel afirmou que o leilão prevê a concessão de toda a ferrovia, de Três Lagoas a Corumbá, além dos trechos entre Campo Grande e Ponta Porã. “Porém, num momento inicial, apenas cerca de 350 quilômetros, entre Campo Grande e Três Lagoas, serão revitalizados”, disse.
Segundo Riedel, já existem empresas interessadas nesse primeiro trecho. Em uma segunda etapa, os demais segmentos também devem ser recuperados. No futuro, a expectativa é que grande parte dos minérios extraídos em Corumbá — atualmente cerca de 12 milhões de toneladas por ano — possa ser escoada pela ferrovia.
Apesar da complexidade e do elevado volume de recursos envolvidos, o governo avalia o momento como favorável. O avanço do projeto técnico, a definição do modelo de concessão e o início do diálogo direto com investidores são vistos como sinais de maturidade da proposta.
“Nunca um empreendedor fez uma ferrovia, na história moderna do Brasil, por esse modelo de autorização”, afirmou o ministro dos Transportes, Renan Filho. Após destacar os investimentos ligados à ferrovia da Arauco, ele anunciou a relicitação da Malha Oeste ainda para este ano.
Desativada há anos, a Malha Oeste corta Mato Grosso do Sul de leste a oeste, ligando Três Lagoas a Corumbá. Renan Filho também anunciou investimentos adicionais de R$ 850 milhões no Estado para concluir o acesso à ponte de Porto Murtinho e reconstruir rodovias.
Conforme as projeções iniciais do Ministério dos Transportes, o vencedor do leilão deverá investir cerca de R$ 89 bilhões ao longo de 57 anos para garantir o funcionamento da linha férrea, sendo R$ 35 bilhões em investimentos diretos — como trilhos, locomotivas e edificações — e R$ 53 bilhões em custos de operação e manutenção.
Para viabilizar o projeto, a futura concessionária poderá contar com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com cobertura de até 80% dos custos totais.
Inaugurada em 1914, há quase 112 anos, a Malha Oeste é considerada estratégica para o escoamento da produção sul-mato-grossense, especialmente do agronegócio e da indústria. Apesar de sua importância, a ferrovia enfrenta há décadas problemas decorrentes da falta de manutenção e de entraves jurídicos e operacionais.

