Enquanto o vereador Rafael Tavares agita as redes com manifestações, adesivaços e palavras de ordem contra o ministro Alexandre de Moraes para surfar políticamente na pauta do momento, um detalhe passa despercebido por boa parte dos seus seguidores: ele está surfando no hype do momento, mas se cala justamente onde deveria gritar. A omissão, que tem sido constante em sua trajetória política, agora vira ferramenta de autopromoção, e escudo para não desagradar aliados estratégicos.
O ativismo seletivo
A prisão iminente de Jair Bolsonaro, seu líder político, e as decisões do Supremo Tribunal Federal têm mobilizado a base bolsonarista. Tavares, percebendo o potencial de engajamento, entrou com tudo no discurso anti-Moraes, convocando atos e adesivaços em Campo Grande.
Porém, enquanto ocupa o papel de defensor da liberdade, evita comentar uma movimentação silenciosa e mais comprometedora: o avanço de Reinaldo Azambuja sobre o Partido Liberal em Mato Grosso do Sul. Azambuja, ex-governador e atual presidente estadual do PSDB, é investigado por diversos esquemas, e agora ensaia uma aproximação com o partido que Tavares representa. E disso, curiosamente, ele não fala nada.

De crítico feroz a cúmplice conveniente
Em 2020, quando ainda era apenas um ativista, Rafael Tavares se apresentava como “inimigo” declarado de Reinaldo Azambuja. Chegou a pedir o impeachment do então governador e o chamava de corrupto em vídeos e postagens nas redes sociais. Também dizia que o PSDB era o “PT de banho tomado” e criticava o suposto uso de dinheiro público para financiar a cantora Ludmilla, acusando Azambuja de favorecer Lula.
Mas o tempo passou, e os palanques mudaram. Em 2024, já como candidato a vereador pelo PL, Tavares dividiu o mesmo palanque com Reinaldo e com Beto Pereira, do PSDB, o mesmo partido que antes considerava inimigo. Seu partido, inclusive, indicou o vice de Beto na chapa, e o vereador, que outrora vociferava contra os tucanos, desta vez silenciou.

A prática da omissão como estratégia
Essa não é a primeira vez que Tavares se omite estrategicamente. Nas eleições de 2020, ele disputou pelo Republicanos, partido que apoiou a reeleição de Marquinhos Trad, político que ele também criticava abertamente até então. O padrão se repete: quando é conveniente, Rafael se cala. E esse silêncio tem rendido dividendos políticos.
Agora, ele se apresenta como guardião das bandeiras conservadoras, mesmo que essas bandeiras sejam enroladas com muito cuidado sempre que um aliado controverso aparece no caminho. E quando questionado sobre a aproximação de Reinaldo com o PL, sua resposta, no mínimo, soa contraditória: “É um alinhamento do Bolsonaro. Todos os políticos que venham para o PL têm que se adequar às nossas bandeiras. Eu continuo defendendo as mesmas pautas.”
A cortina de fumaça digital
Tavares não é bobo. Sabe que a direita está mobilizada contra o STF e que há espaço para crescer politicamente em cima dessa insatisfação. Por isso, concentra esforços em atos e campanhas contra Alexandre de Moraes, enquanto constrói uma cortina de fumaça que impede seus seguidores de perceberem os acordos que favorecem figuras como Azambuja.
Importante lembrar que o próprio Alexandre de Moraes foi filiado ao PSDB entre 2015 e 2017, período em que Reinaldo era governador de Mato Grosso do Sul. Ou seja, o atual silêncio de Tavares beneficia diretamente um aliado histórico do ministro que ele tanto critica.

Um futuro incerto, mas conhecido
Além das contradições, Tavares enfrenta um processo criminal que, se resultar em condenação com trânsito em julgado, pode deixá-lo inelegível para 2026. Mesmo assim, segue apostando na velha fórmula: discurso inflamado, inimigos escolhidos a dedo e muita movimentação nas redes sociais para manter o nome em alta.
O roteiro é conhecido e eficiente. O problema é que, na prática, o vereador tem entregado menos combatividade real e mais conveniência estratégica. Sua omissão diante do avanço tucano no PL do estado levanta suspeitas e frustra apoiadores que esperavam uma postura firme.
Conclusão: o barulho certo no lugar errado
Tavares segue gritando, sim. Mas grita onde é confortável, onde dá ibope e onde não precisa contrariar aliados influentes. Enquanto isso, os mesmos políticos que ele acusava de corrupção seguem se aproximando de seu partido, com sua silenciosa permissão.
Talvez o eleitorado mais atento comece a perceber que, entre os adesivos colados e os discursos inflamados, existe um projeto político baseado em autopreservação. E Rafael Tavares, que já foi caçador de corruptos, hoje parece mais disposto a poupá-los, desde que estejam no mesmo barco.
A reportagem do Fato67 procurou o vereador Rafael Tavares para comentar os pontos abordados, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto para manifestação do parlamentar, caso queira se posicionar.

