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    Técnica do Leoas detalha pressão e hostilidade em caso de homem biológico no futebol feminino em Campo Grande

    O futebol amador feminino de Campo Grande viveu dias de turbulência após a polêmica decisão da equipe Leoas CG de não entrar em campo contra o time Fênix, no dia 6 de setembro, em partida válida pelo campeonato da Arena Tony Gol. O motivo foi a escalação de uma atleta trans do sexo masculino no torneio anunciado como competição exclusiva para mulheres. A decisão resultou em W.O. e na retirada das Leoas do campeonato, gerando repercussão estadual.

    Em entrevista exclusiva ao Fato67, Bárbara Augusta, técnica e uma das donas do time, falou pela primeira vez de forma detalhada sobre os bastidores do caso.

    Time de futebol feminino amador Leoas F.C. de Campo Grande | Foto: Reprodução

    Falta de transparência e risco à integridade das atletas

    Segundo Bárbara, a equipe só foi informada da presença de uma atleta trans cinco minutos antes do início da partida. A notícia pegou jogadoras e comissão técnica de surpresa.

    “Nos inscrevemos em um campeonato anunciado como feminino. Faltando cinco minutos, fomos informadas de que enfrentaríamos um homem biológico em campo. Nosso time não aceita isso por uma questão de transparência, lealdade e integridade física das atletas. Futebol é esporte de contato, e não vamos potencializar riscos colocando mulheres para disputar divididas contra homens”, afirmou.

    A técnica destacou ainda que, em outra edição do torneio, a organização havia garantido que não permitiria a participação de atletas trans justamente para evitar conflitos. “Confiamos nessa informação. Por isso nos sentimos enganadas”, disse.

    Time do Leoas F.C. se manifestaram em homenagem na Câmara Municipal de Campo Grande | Imagem: Montagem Fato67

    Pressão e clima hostil

    Bárbara relatou que, ao se recusar a colocar a equipe em campo, foi imediatamente hostilizada. “A representante do time adversário me chamou de transfóbica, preconceituosa e covarde, tudo isso enquanto me filmava. O organizador chegou a dizer que suspenderia a partida, mas, assim que virou as costas, autorizou o início do jogo e decretou W.O. contra nós. No dia seguinte, ele mesmo pediu desculpas em áudio, reconhecendo que cedeu à pressão por medo da reação do outro time”, contou.

    Ela também disse que houve tentativas de convencer as Leoas a jogar, inclusive com o argumento de que “era apenas um atleta” e que o time teria superioridade técnica. “Não é sobre ser superior ou inferior, é sobre ser justo. O certo é certo”, rebateu.

    Bárbara Augusta, técnica e uma das donas do time Leoas F.C. em entrevista exclusiva ao Fato67 | Foto: Roger Usai

    Ataques virtuais e tentativa de silenciamento

    Após o episódio, as Leoas passaram a ser alvo de uma onda de ataques virtuais. A página oficial do time recebeu denúncias em massa, além de mensagens com acusações de transfobia e ameaças de processo.

    “Tentaram nos calar derrubando nossa página e lançando notas de repúdio para nos constranger. Foi uma tentativa clara de intimidação. Isso é o que chamamos de discriminação invertida: mulheres foram expulsas de um campeonato que deveria ser feminino, enquanto um homem biológico permaneceu em campo”, declarou Bárbara.

    Quem perde espaço são as mulheres

    Na avaliação da técnica, o episódio é simbólico para o debate sobre o espaço do futebol feminino. “Não saímos por transfobia, saímos porque foi anunciado como futebol feminino, mulheres contra mulheres. O que aconteceu foi injusto. Quem perde espaço somos nós, mulheres. Muitas têm medo de se posicionar para não sofrer represálias e acabam aceitando caladas”, afirmou.

    Bárbara defendeu que haja regulamentação clara e respeito às categorias esportivas. “Apoio que se criem competições próprias para atletas trans, como já existe em outras modalidades. Mas não aceito que o espaço conquistado pelas mulheres, depois de décadas de luta, seja desrespeitado. Futebol feminino tem que ser para mulheres.”

    Notas oficiais

    O time Fênix, adversário das Leoas, afirmou em nota que a saída foi decisão exclusiva das rivais e que não houve expulsão. “Nosso embate não é contra um time, mas contra a transfobia e a difamação. Reafirmamos nosso compromisso em defender Adriana, mulher trans, de qualquer ataque discriminatório”, destacou o comunicado.

    Já a Arena Tony Gol divulgou nota nesta segunda-feira (15) confirmando que não havia regulamentação específica para atletas trans no torneio, o que levou a um “fato atípico”. A organização ressaltou que repudia qualquer ato de discriminação e que, nos próximos campeonatos, adotará o regulamento oficial do futebol nacional para garantir “um ambiente justo e respeitoso para todos”.

    Debate que vai além das quatro linhas

    O caso das Leoas expõe a falta de clareza nas regras e a pressão que times amadores enfrentam diante de pautas políticas e identitárias. Enquanto a militância LGBTQIAPN+ fala em inclusão, jogadoras relatam perseguição e sensação de abandono.

    “Esperamos que nosso posicionamento sirva de exemplo. O futebol feminino é espaço das mulheres, e não podemos aceitar que seja desfeito. Cada um deve ter o seu lugar respeitado”, concluiu Bárbara.

    Roger Usai

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