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    Candidatos do PT e do Novo fazem “dobradinha” para desgastar candidato de Flávio Bolsonaro ao governo em MS

    A eleição para o Governo de Mato Grosso do Sul começa a produzir uma combinação no mínimo curiosa. De um lado está Fábio Trad, candidato do PT. Do outro, João Henrique Catan, do Novo, político que construiu sua trajetória eleitoral na direita e chegou à Assembleia Legislativa em 2022 pelo então PL.

    Ideologicamente, os dois deveriam estar em lados bastante diferentes. Na campanha, porém, há pelo menos um ponto em que parecem falar uma língua parecida: os ataques ao governador Eduardo Riedel.

    Riedel é candidato à reeleição pelo Progressistas e, no cenário nacional, declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência. O governador afirmou que Mato Grosso do Sul construiu uma frente envolvendo direita e centro em apoio ao senador.

    Governador Eduardo Riedel candidato a reeleição pelo PP (à esquerda) é apoiado por Flávio Bolsonaro (à direita) | Imagem: Reprodução Instagram

    É justamente nesse contexto que a atuação de Catan chama atenção. O deputado, que chegou à política eleitoral com forte identificação com Jair Bolsonaro, hoje disputa o Governo pelo Novo, que tem Romeu Zema concorrendo a presidência contra Flávio Bolsonaro, e tem direcionado uma série de conteúdos críticos contra Riedel.

    Deputado João Henrique Catan é candidato ao governo de MS pelo partido Novo, que tem Romeu Zema disputando a presidência da República contra Flávio Bolsonaro (PL) | Imagem: Montagem Fato67

    Parte dessa estratégia utiliza inteligência artificial. Catan chegou a produzir uma série de vídeos com personagens virtuais, os chamados “bonequinhos”, para satirizar o governador e integrantes de sua administração.

    A estratégia, porém, ultrapassou o terreno da simples provocação política e chegou à Justiça Eleitoral.

    Em junho, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul determinou que Catan retirasse do ar um vídeo produzido com inteligência artificial que fazia críticas a Riedel. A decisão apontou ausência de informação clara sobre o uso da tecnologia e também questionou o impulsionamento pago da publicação. O conteúdo fazia parte de uma série chamada “Os Intocáveis”, criada pelo deputado.

    Outras decisões envolvendo publicações semelhantes também foram tomadas pela Justiça Eleitoral. Em uma delas, o relator determinou que Catan prestasse esclarecimentos sobre conteúdo produzido com IA e sem a devida rotulagem.

    A sátira política não é o problema. Governantes e candidatos podem e devem ser criticados. O eleitor tem direito de rir, questionar e até rejeitar politicamente um candidato.

    A questão jornalística é outra: quando uma animação criada por inteligência artificial apresenta uma situação fictícia, o público consegue identificar imediatamente que aquilo é uma sátira? E quando uma acusação ou insinuação aparece embalada como humor, quem responde pelo conteúdo?

    É nesse ponto que a campanha de Catan começa a oferecer uma situação curiosa.

    Enquanto ele se apresenta como uma alternativa à atual administração e disputa o eleitorado que historicamente se identifica com a direita, o principal alvo de seus conteúdos é justamente o governador que hoje conta com o apoio declarado de Flávio Bolsonaro em Mato Grosso do Sul.

    E do outro lado da disputa está Fábio Trad.

    O candidato do PT também tem Riedel como adversário direto na corrida pelo Governo. As pesquisas disponíveis colocam os dois entre os principais nomes da disputa, com Catan aparecendo na terceira posição. Levantamento recente de um instituto de pesquisa, sob os registros MS-09894/2026 e BR-08288/2026 divulgado no dia 10 de setembro, apontou Riedel com 48% das intenções de voto na pesquisa estimulada, seguido por Fábio Trad, com 20,1%, Delcidio com 10% e Catan amargando a quarta posição com 4,2%.

    Candidato ao governo pelo PT, Fábio Trad (à esquerda), senadora Soraya Thronicke (centro), candidato a reeleição pelo PT, presidente Lula (à direita) | Foto: Ricardo Stuckert

    Não há, entretanto, elemento suficiente para afirmar que as duas campanhas estejam coordenando ataques ou formando qualquer tipo de aliança. São candidaturas distintas, com projetos políticos diferentes e que disputam o mesmo eleitorado.

    O que pode ser constatado é que Trad e Catan estão em campos políticos diferentes, mas têm Riedel como adversário comum e aparecem em um ambiente eleitoral no qual os ataques à imagem do governador ganharam espaço.

    A ironia fica por conta da trajetória política de Catan.

    O candidato que hoje disputa pelo Novo e critica o governador apoiado por Flávio Bolsonaro construiu sua primeira eleição estadual justamente no ambiente político associado a Jair Bolsonaro. Agora, a disputa mudou, os partidos mudaram e os adversários também mudaram.

    Mas o eleitor conservador continua sendo uma peça importante desse tabuleiro.

    E é aí que a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre PT, Novo e Progressistas. Passa também a ser uma disputa pela identidade da própria direita em Mato Grosso do Sul.

    Catan tenta ocupar esse espaço. Riedel, por sua vez, disputa a reeleição apoiado por uma frente que reúne setores da direita e do centro e tem o respaldo declarado de Flávio Bolsonaro.

    No meio disso, os “bonequinhos” de inteligência artificial ganharam protagonismo.

    A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa para comunicação política. Pode explicar propostas, comparar números, traduzir informações e aproximar candidatos do eleitor.

    Também pode, naturalmente, produzir um bonequinho fazendo piada com o adversário.

    Só não deveria ser necessário esperar uma decisão da Justiça Eleitoral para descobrir onde termina a sátira e começa a propaganda negativa irregular.

    No fim, a eleição continua sendo a velha disputa de sempre. Só trocaram o santinho pelo algoritmo.

    E, ao que tudo indica, os bonequinhos ainda vão trabalhar bastante até outubro.

    Roger Usai

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