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    Márcio Fernandes e Caravina buscam voto conservador mas rejeitam lei que proíbe homem biológico de frequentar banheiro feminino

    Márcio Fernandes e Caravina acenam à direita, mas divergem de pauta conservadora em Campo Grande

    A disputa pela reeleição à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul coloca os deputados Márcio Fernandes (PL) e Pedro Arlei Caravina (PSDB) diante de um movimento político semelhante: a tentativa de ampliar o diálogo com o eleitorado de direita em um ano eleitoral marcado pela reorganização dos grupos políticos no Estado.

    Apesar da aproximação com esse segmento, os dois parlamentares adotaram uma posição contrária à lei sancionada em Campo Grande que estabelece critérios baseados no sexo biológico para o uso de banheiros públicos. A legislação é defendida por setores conservadores como uma medida de proteção aos espaços femininos.

    Márcio Fernandes, que deixou o MDB após mais de 20 anos e ingressou no PL durante a janela partidária, foi questionado diretamente sobre a legislação. A resposta foi objetiva.

    “Se você me perguntar se sou favorável a essa lei do jeito que ela está, na minha opinião não”, afirmou o deputado ao site Midiamax em entrevista publicada no dia 28 de abril.

    Márcio Fernandes (à esquerda) é afilhado político do ex-governador André Puccinelli (à direita) | Foto: Reprodução

    A declaração chama atenção pelo momento político vivido pelo deputado. Antes da mudança, Márcio Fernandes construiu sua carreira principalmente dentro do MDB e não tinha como principal marca pública a defesa de pautas de costumes associadas ao conservadorismo.

    A filiação ao PL mudou o ambiente político do parlamentar. Na época da mudança, Fernandes afirmou publicamente que a decisão ocorreu por “ideologia política” e disse que seus valores estavam mais alinhados com a legenda. O deputado também declarou que acreditava no projeto nacional do partido.

    Nos bastidores, entretanto, a movimentação partidária é interpretada por integrantes da política estadual também como uma decisão de cálculo eleitoral com medo de não ser reeleito na sua antiga sigla. A mudança ocorreu justamente em um momento de reorganização da chapa do MDB, que voltou a contar com André Puccinelli, padrinho político de Fernandes, como nome para a disputa por uma vaga na Assembleia.

    Puccinelli tentou convencer o deputado a permanecer no MDB e chegou a classificar a saída para o PL como um “erro grave”. Fernandes, porém, decidiu deixar a legenda e ingressar no partido que concentra parte significativa das lideranças bolsonaristas em Mato Grosso do Sul.

    O vereador condenado em segunda instância, Rafael Tavares (à direita), declarou apoio ao deputado de centro, Márcio Fernandes (à esquerda) | Imagem: Reprodução Instagram

    A nova estratégia também ganhou um importante apoio dentro da direita de Campo Grande. Durante a convenção do PL, o vereador Rafael Tavares declarou apoio à candidatura de Márcio Fernandes e afirmou que o deputado deverá representar a direita na Assembleia.

    “Márcio Fernandes é o nosso deputado estadual” e “vai representar a direita a partir do ano que vem na Assembleia Legislativa”, afirmou Tavares, que segundo fontes ligadas ao parlamentar, tem enfrentado dificuldade para transferir voto conservador para um deputado que sempre compôs o bloco do centrão.

    O apoio, contudo, não significa que Márcio Fernandes tenha passado a ser automaticamente reconhecido como uma liderança histórica do campo conservador. O deputado chega ao PL vindo de uma longa trajetória no MDB e passou a disputar espaço dentro de um grupo que já possui nomes com atuação mais identificada com pautas conservadoras.

    Além disso, Rafael Tavares não disputará as eleições de 2026. O vereador teve recursos rejeitados pela Justiça e permanece impedido de concorrer neste ano. Com isso, embora continue exercendo mandato na Câmara Municipal, sua capacidade de participar diretamente da disputa eleitoral ficou limitada.

    A escolha de Tavares por apoiar Márcio Fernandes também chama atenção porque o vereador construiu sua trajetória política associada à direita e poderia, em tese, direcionar seu apoio a um nome com uma identificação mais antiga com esse campo. A opção pelo deputado do PL reforça a leitura de que a aproximação entre os dois faz parte de uma articulação eleitoral para a disputa pela Assembleia.

    Caravina segue caminho diferente

    Pedro Arlei Caravina também tenta ampliar sua interlocução com o eleitorado de direita, mas sem deixar o PSDB. Ex-prefeito de Bataguassu e delegado de Polícia Civil, o deputado construiu sua imagem política principalmente em torno da segurança pública, do municipalismo e de pautas relacionadas à defesa da propriedade e tem tentado votos conservadores através de lideranças ligadas às pautas da direita.

    Na Assembleia Legislativa, Caravina integra inclusive a Frente Parlamentar de Defesa do Direito da Propriedade, ao lado de deputados de diferentes partidos, entre eles nomes do PL.

    Deputado Arlei Caravina (PSDB) | Foto: Reprodução Instagram

    Apesar dessa aproximação com temas que encontram espaço entre eleitores conservadores, Caravina também rejeitou a lei dos banheiros de Campo Grande.

    “Mulher trans, ela se reconhece como mulher, você restringir ela a utilizar um local de mulher constitucionalmente acredito que fere”, declarou o deputado em entrevista ao site Midiamax no dia 28 de abril.

    A manifestação tem peso adicional porque Caravina preside a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Assembleia Legislativa, colegiado responsável pela análise da constitucionalidade dos projetos que tramitam na Casa.

    O posicionamento coloca o tucano em uma situação semelhante à de Márcio Fernandes. Os dois buscam ampliar o diálogo com setores da direita, mas, diante de uma pauta de costumes defendida por parte desse eleitorado, optaram por uma posição contrária à legislação.

    A divergência fica ainda mais evidente quando comparada às manifestações de outros deputados. Lidio Lopes (Avante), por exemplo, defendeu a lei e afirmou que a medida representa uma forma de legislar em defesa das mulheres. Pedrossian Neto (Republicanos) destacou a controvérsia constitucional e defendeu uma análise cuidadosa do tema.

    No caso de Márcio Fernandes, a contradição política é mais evidente pelo movimento recente de mudança de partido. O parlamentar saiu de uma legenda de centro, ingressou no PL e passou a receber o apoio de uma liderança identificada com a direita, enquanto tenta construir uma nova imagem eleitoral junto a esse público.

    Caravina, por sua vez, permanece no PSDB e busca ocupar um espaço próprio entre eleitores conservadores, sem carregar a mesma associação partidária ao bolsonarismo.

    O episódio mostra que a disputa pelo eleitorado de direita em Mato Grosso do Sul não será travada apenas entre candidatos que historicamente atuaram nesse campo. Parlamentares de diferentes trajetórias também tentam se aproximar desse público, seja por mudança partidária, alianças ou posicionamentos.

    A lei dos banheiros, entretanto, expôs uma diferença entre discurso eleitoral e posicionamento em uma pauta de costumes. Tanto Márcio Fernandes quanto Caravina tentam ampliar sua presença junto à direita, mas os dois afirmaram não apoiar a legislação municipal na forma em que foi sancionada.

    Roger Usai

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