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    Greve em pleno Natal coloca em evidência vínculos políticos de dirigente sindical com Rose Modesto e Beto Pereira

    A greve dos motoristas do transporte coletivo de Campo Grande, que chega ao terceiro dia consecutivo em pleno período natalino, já não causa apenas transtornos à população. Ela começa a escancarar questionamentos que vão muito além das reivindicações trabalhistas. Nos bastidores políticos da capital, cresce a atenção sobre o vínculo do presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Campo Grande, William Alves da Silva, com a ex-deputada federal Rose Modesto, do União Brasil, e com o deputado federal Beto Pereira, do PSDB.

    Willian participa do movimento grevista que paralisa a Capital | Foto: Reprodução

    William desponta como um dos principais articuladores da paralisação, deflagrada no momento mais sensível do calendário econômico da cidade. Enquanto o comércio tenta sobreviver ao período de maior faturamento do ano, a população fica sem transporte e o prejuízo se espalha em cadeia. O detalhe inconveniente é que o transporte coletivo é serviço essencial, o que levou tanto o Judiciário quanto a Prefeitura a classificarem a greve como abusiva. Ainda assim, ela segue firme, como se decisões judiciais fossem apenas sugestões.

    Rose Modesto, vale lembrar, disputou o segundo turno das eleições municipais de 2024 contra a prefeita Adriane Lopes, do PP, e foi derrotada nas urnas. O fim da eleição, no entanto, parece não ter encerrado a disputa política. Segundo articuladores ouvidos pelo Fato67, grupos ligados à ex-deputada mantêm um estado permanente de oposição à gestão municipal, em um terceiro turno informal que já projeta 2026 no retrovisor.

    Willian se filiou ao Partido Socialista Brasileiro em 2023 | Foto: Reprodução

    É nesse ambiente que o histórico político do presidente do sindicato passa a ser observado com lupa. Em 2023, William Alves da Silva se filiou ao Partido Socialista Brasileiro com o apoio explícito do deputado federal Beto Pereira, também adversário de Adriane Lopes na última eleição. A filiação partidária, por si só, é absolutamente legítima. O que chama atenção é o timing e o contexto em que a greve ganha contornos que extrapolam a mesa de negociação trabalhista.

    A proximidade política não é apenas teórica. William e Rose foram vistos juntos recentemente, o que reforçou a leitura de que há mais articulação do que coincidência. Para interlocutores da política local, a greve até nasce de uma causa justa, mas passa a levantar dúvidas quando se transforma em palco para embates que parecem menos sindicais e mais eleitorais.

    Os motoristas alegam atraso no pagamento de salários por parte do Consórcio Guaicurus. A Prefeitura, por sua vez, afirma que os repasses às concessionárias foram feitos dentro do prazo contratual. Mesmo assim, a paralisação foi mantida, inclusive após determinação judicial para o retorno escalonado da frota, sob pena de multa diária de R$ 200 mil. O recado do Judiciário foi claro, mas a resposta foi o silêncio das garagens.

    Especialista consultado pelo Fato67 avalia que a reivindicação dos trabalhadores é legítima. Motoristas e cobradores foram colocados à margem de um Natal digno por uma concessionária que falhou em suas obrigações. O alerta, porém, é direto: quando sindicatos se deixam contaminar por interesses políticos, a categoria corre o risco de virar massa de manobra, enquanto o verdadeiro responsável pela crise observa de camarote.

    A escalada do caos levou a Justiça a determinar que a Prefeitura instaure um procedimento administrativo de intervenção no contrato do Consórcio Guaicurus no prazo de 30 dias. A decisão, assinada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, impôs multa diária de R$ 300 mil em caso de descumprimento e exige a nomeação de um interventor e um cronograma para tentar colocar o sistema nos trilhos.

    A ação foi proposta por Lucas Gabriel de Sousa Queiroz Batista, o Luso Queiroz, candidato à Prefeitura em 2024 pelo PSOL, hoje filiado ao PT. Um detalhe que, novamente, insere o episódio no cruzamento nada discreto entre crise urbana e disputa política.

    Apesar das decisões judiciais, Campo Grande amanheceu pelo terceiro dia consecutivo sem ônibus circulando. O Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região determinou o fim da greve, elevou multas e exigiu o retorno de ao menos 70% da frota. Ainda assim, após assembleia, a paralisação foi mantida, como se a cidade pudesse simplesmente apertar pausa até que interesses diversos se resolvam.

    O presidente do STTCU-CG, Demétrio Freitas, afirmou que a categoria só retorna quando os valores forem pagos. Enquanto isso, a população segue andando a pé, o comércio acumula prejuízos e o Natal de milhares de famílias é sacrificado no altar de um conflito que mistura atraso salarial, omissão empresarial e uma articulação política que insiste em não ficar fora do roteiro.

    Diante desse cenário, a pergunta que ecoa nos bastidores já não é apenas quando os salários serão pagos ou os ônibus voltarão a circular. A dúvida que se impõe é até que ponto um movimento legítimo de trabalhadores está sendo atravessado por interesses políticos, ampliando danos, esticando a crise e transformando a cidade em refém de um embate que parece menos sindical e cada vez mais eleitoral.

    Roger Usai

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