A imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, anunciada pelo presidente Donald Trump, marcou o cenário internacional brasileiro de 2025 e provocou impactos diretos no comércio exterior de País e de Mato Grosso do Sul. A medida entrou em vigor em 6 de agosto, mas foi parcialmente revogada em 20 de novembro, após negociações diplomáticas entre os dois países.
O chamado “tarifaço” atingiu exportações brasileiras de itens como carne bovina, café e frutas, levando produtores e indústrias a rever estratégias e buscar novos mercados internacionais. Em Mato Grosso do Sul, a reação incluiu a diversificação de destinos e a adaptação da produção, o que evitou prejuízos mais significativos ao setor.
As justificativas apresentadas por Trump envolveram críticas ao Judiciário brasileiro, com alegações de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro, que respondeu a ações no Supremo Tribunal Federal (STF) relatadas por Alexandre de Moraes. O governo norte-americano também anunciou sanções a ministros do STF, em meio a decisões judiciais que afetaram plataformas digitais dos Estados Unidos e investidores de grandes empresas de tecnologia.
Embora os Estados Unidos não sejam o principal parceiro comercial do Brasil, o país é destino relevante para produtos como laranja, aço e carnes. Apenas em 6 de agosto, a Casa Branca detalhou quais mercadorias seriam efetivamente atingidas pela sobretaxa.
De acordo com o documento oficial, produtos como celulose e ferro-gusa ficaram fora da taxação adicional de 40%, mantendo a tarifa de 10% já aplicada de forma recíproca entre os países. Ao todo, 694 produtos foram excluídos do tarifaço, entre eles suco e polpa de laranja, combustíveis, minérios, fertilizantes, aeronaves civis, motores, peças e componentes.
Também ficaram fora da sobretaxa itens como polpa de madeira, metais preciosos, energia e produtos energéticos. Em contrapartida, café, frutas e carnes — que representam grande volume das exportações brasileiras aos Estados Unidos — não foram incluídos nas exceções e acabaram taxados com o percentual extra.
Após a entrada em vigor do tarifaço, frigoríficos sul-mato-grossenses habilitados para exportar aos Estados Unidos suspenderam a produção destinada ao mercado norte-americano. Com isso, as empresas passaram a avaliar o redirecionamento da produção para outros mercados. A expectativa era de que a redução das exportações pudesse, inclusive, impactar o preço da carne no mercado interno.
Cerca de 80 dias após o início do tarifaço, Mato Grosso do Sul conseguiu se adaptar ao novo cenário. Mesmo com a redução das vendas aos Estados Unidos, o Estado registrou crescimento de 3,7% nas exportações totais entre julho e setembro de 2025.
Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), o agronegócio estadual demonstrou “resiliência e capacidade de adaptação” em um contexto internacional desafiador. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, as exportações do agronegócio sul-mato-grossense para os Estados Unidos somaram US$ 373,5 milhões, uma retração de 1,9% em relação ao mesmo período de 2024, quando o volume chegou a US$ 380,8 milhões.
Apesar das dificuldades, alguns segmentos apresentaram crescimento. De acordo com a consultora técnica de economia da Famasul, Eliamar Oliveira, a exportação de tilápia alcançou US$ 7,3 milhões e 1,4 mil toneladas no acumulado do ano, com setembro registrando a maior receita mensal da série para o mercado norte-americano.
O setor de carne bovina também apresentou desempenho positivo. “A carne bovina aumentou as vendas para os americanos em receita e volume no acumulado do ano, mesmo com a redução das exportações nos meses de agosto e setembro”, explicou a consultora.
A Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) afirmou que o setor não registrou prejuízos com o tarifaço. Segundo a entidade, o Estado passou a ter a melhor cotação do chamado “boi China” — gado que atende aos requisitos sanitários e de qualidade exigidos pelo mercado chinês —, tornando o boi gordo de Mato Grosso do Sul o mais valorizado do país.
Após negociações o governo dos Estados Unidos anunciou, em 20 de novembro, a suspensão da tarifa adicional de 40% aplicada a parte dos produtos agrícolas brasileiros, incluindo café e carne bovina. A decisão ocorreu cerca de 25 dias após um encontro entre os presidentes dos dois países e foi confirmada em documento divulgado pela Casa Branca.
No texto, Trump citou uma conversa telefônica com o presidente Lula na qual ambos concordaram em abrir tratativas para revisar o tarifaço. Segundo o governo norte-americano, o avanço do diálogo tornou desnecessária a manutenção da cobrança adicional para determinados produtos.
A suspensão teve efeito retroativo, garantindo isenção para mercadorias retiradas de armazéns para consumo a partir das 12h01 (horário de Nova York) do dia 13 de novembro.

