A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS) será realizada entre os dias 23 e 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS). O encontro marcará a primeira vez que o Brasil sediará a principal instância de decisão global voltada exclusivamente à proteção de espécies migratórias, seus habitats e rotas.
Organizada pelo governo brasileiro, a conferência será presidida pelo secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco. A expectativa é de que mais de 2 mil participantes — entre representantes de governos, cientistas, organizações internacionais e membros da sociedade civil — participem das discussões ao longo da semana.
O evento reunirá representantes das 133 partes signatárias da CMS para avaliar o estado de conservação das espécies migratórias, definir prioridades para os próximos três anos e deliberar sobre políticas públicas, ações coordenadas e investimentos necessários para conter a perda da biodiversidade.
O que são espécies migratórias
Espécies migratórias são aquelas que se deslocam periodicamente de uma região para outra, seguindo padrões geralmente regulares e previsíveis. Esse comportamento ocorre em diversos grupos de animais, como aves, mamíferos, peixes, répteis, anfíbios e até insetos.
No âmbito da convenção, considera-se migratória a espécie cuja população, ou parte dela, cruza fronteiras internacionais ao longo de seu ciclo de vida — o que torna indispensável a cooperação entre países para sua proteção.
Os deslocamentos ocorrem por diferentes razões, como busca por alimento, água, temperaturas adequadas e locais seguros para reprodução. Tartarugas marinhas, por exemplo, atravessam oceanos sozinhas, enquanto outras espécies realizam migrações em grandes grupos.
Atualmente, cerca de 1.189 espécies são protegidas pela CMS, incluindo 962 aves, 94 mamíferos terrestres, 64 mamíferos aquáticos, 58 espécies de peixes, 10 répteis e um inseto. Muitas delas passam pelo território brasileiro em algum momento de suas rotas migratórias.
Importância ecológica, econômica e cultural
As espécies migratórias exercem papel estratégico no equilíbrio dos ecossistemas. Elas contribuem para o transporte de nutrientes entre ambientes terrestres, aquáticos e marinhos, auxiliam na polinização de plantas agrícolas e na dispersão de sementes, além de sustentarem atividades econômicas como o ecoturismo.
Também funcionam como indicadores da saúde ambiental. Alterações em seus padrões de migração ou na quantidade de indivíduos podem sinalizar problemas nos habitats ao longo de suas rotas.
Principais ameaças
A perda, degradação e fragmentação de habitats representam a principal ameaça, afetando cerca de 75% das espécies migratórias. A expansão agrícola e a construção de infraestruturas, como barragens em rios, comprometem a conectividade necessária para a migração, especialmente de peixes.
Outra ameaça significativa é a sobre-exploração, que atinge aproximadamente 70% dessas espécies. O uso excessivo para alimentação, comércio, vestuário e artesanato ultrapassa, em muitos casos, a capacidade natural de reposição das populações.
Para enfrentar esse cenário, a CMS classifica as espécies em dois anexos: o Anexo I reúne aquelas ameaçadas de extinção, que exigem proteção rigorosa e medidas urgentes; já o Anexo II inclui espécies com estado de conservação desfavorável ou que demandam ações coordenadas entre países. As listas são revisadas a cada três anos durante a Conferência das Partes.
O que é a CMS
Criada em 1979 no âmbito da Organização das Nações Unidas, a CMS é o único tratado ambiental global especializado na conservação de espécies migratórias. Atualmente, 132 países e a União Europeia são signatários da convenção.
No Brasil, o tratado foi ratificado por meio do Decreto Legislativo nº 387/2013 e promulgado pelo Decreto nº 9.080/2017, entrando em vigor em outubro de 2015.
O que é uma COP
A Conferência das Partes (COP) é o principal órgão decisório da convenção e ocorre a cada três anos. Durante o encontro, os países-membros definem orçamento, aprovam planos de ação, atualizam listas de espécies protegidas e adotam resoluções que orientam políticas de conservação em nível global.
O modelo segue o padrão adotado por outras conferências ambientais da ONU, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, responsável pela realização da COP30.
Resultados esperados
Com o tema “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”, a COP15 de 2026 pretende reforçar a necessidade de proteger não apenas os destinos das espécies, mas também suas rotas migratórias e pontos de parada.
Entre os principais documentos que serão analisados estão 17 propostas de alterações nos anexos da convenção, 11 relatórios sobre a implementação de ações concertadas no último triênio, 16 propostas de novas ações para o próximo período, além de relatórios nacionais apresentados pelas partes.
Ao final do encontro, é esperada a adoção de declarações políticas de alto nível, incluindo compromissos ministeriais que reafirmem o esforço internacional para preservar as espécies migratórias e conter o avanço da perda de biodiversidade no planeta.

