A tentativa de articulação de uma dobrada eleitoral entre o tenente Aparecido Portela e sua filha, a vereadora Ana Portela, tem movimentado os bastidores da política em Mato Grosso do Sul. Não exatamente pelo entusiasmo que provoca, mas pelo desconforto que causa entre lideranças que ainda tentam entender se a estratégia é ousadia, excesso de confiança ou apenas olho gordo no fundo eleitoral.
A proposta é simples no papel e complexa na prática. Pai e filha buscando espaço simultâneo em um campo político que já enfrenta dificuldades para organizar suas próprias fileiras. Em tese, seria uma soma de forças, e segundo fontes, uma forma da família ter acesso em um valor maior no fundo eleitoral para “aditivar” a campanha da vereadora trapalhona. Na prática, há quem enxergue mais divisão do que multiplicação.
Ana Portela, eleita vereadora em Campo Grande após uma disputa apertada em 2024, agora tenta avançar rumo à Assembleia Legislativa. O movimento é legítimo dentro do jogo político, embora esbarre em um detalhe incômodo: a construção de base. Até aqui, sua atuação ainda não conseguiu consolidar uma liderança clara dentro das pautas que a própria direita costuma reivindicar como prioridade.
Já o tenente Aparecido Portela, suplente da senadora Tereza Cristina, segue orbitando a política estadual com um ativo que não aparece nas urnas, mas pesa nos bastidores: a proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em um cenário ideal, isso poderia se traduzir em capital político. No cenário real, tem funcionado mais como um crédito simbólico que ainda não virou voto.
Fontes ouvidas reservadamente apontam que a ascensão de Ana Portela passou por uma engenharia política considerável. Estrutura, apoio e articulação foram necessários para garantir uma vaga na Câmara Municipal para uma figura até então pouco testada eleitoralmente. A pergunta que circula, ainda sem resposta clara, é se o investimento gerou retorno político ou apenas ocupou espaço.
Na tentativa de acelerar esse retorno, a vereadora adotou uma estratégia que chama atenção. Passou a mirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discursos na Câmara Municipal. O problema é que, no roteiro institucional, Lula não administra Campo Grande, não legisla na cidade e tampouco responde às demandas locais. Ainda assim, virou alvo preferencial. Para alguns, trata-se de posicionamento político. Para outros, um esforço criativo de encontrar relevância onde ela ainda não se firmou.
Como se não bastasse, surgiram acusações de nepotismo, prontamente negadas pela vereadora. O episódio adiciona mais um elemento a uma trajetória que já vinha sendo acompanhada com lupa. E, mesmo com esse conjunto de fatores, a busca por apoio para a dobrada familiar segue ativa. Ao que tudo indica, a aposta é que insistência possa substituir consolidação.
Nos bastidores, o incômodo cresce. Lideranças da direita avaliam que, enquanto o discurso público fala em organização e estratégia para enfrentar adversários, iniciativas como essa acabam produzindo o efeito inverso. Em vez de fortalecer o grupo, ampliam disputas internas e criam ruídos desnecessários.
No fim, a dobrada dos Portela escancara uma cena recorrente na política. Fala-se em renovação, mas aposta-se no sobrenome. Defende-se estratégia, mas pratica-se improviso. E enquanto isso, a tão desejada unidade segue no papel, aguardando alguém que, de fato, consiga transformá-la em realidade.

