Operação Buraco Sem Fim, a Terra Indígena Buriti que a União abandonou, o desembargador que soltou um chefe do PCC: casos diferentes, mesmo método. O Livro Amarelo, programa da Missão, batizou essa engrenagem de Extrativismo Cultural — e MS é um dos seus retratos mais nítidos.
O sul-mato-grossense acompanha, mês a mês, uma sucessão de casos que parecem desconexos. Um suposto esquema de tapa-buraco em Campo Grande que movimentou R$ 113,7 milhões. Uma fazenda incendiada em Sidrolândia, dentro de uma área indígena que a União reconheceu em 2001 e depois parou de decidir. Um desembargador do TJMS aposentado com salário depois de soltar, em 40 minutos de plantão, um chefe do PCC condenado a 126 anos. À primeira vista, são histórias de páginas diferentes do jornal. Esta coluna quer mostrar ao leitor de MS que elas são, na verdade, capítulos de um mesmo livro — e que esse livro tem nome.
O nome vem do Livro Amarelo, o programa de governo do Missão, e é o seguinte: Extrativismo Cultural.A ideia é simples de enunciar e desconfortável de aceitar. Existem, no Brasil, três grandes injustiças — a do Estado, a das elites e a do crime — e, por mais que pareçam inimigas, todas operam pelo mesmo método: extrair tudo o que for possível de quem não consegue reagir. Mato Grosso do Sul, longe de ser exceção, é um laboratório do conceito. Vamos por partes, com endereço daqui.
Comece pelo Estado. A Operação Buraco Sem Fim, deflagrada pelo Ministério Público estadual, mira um suposto esquema sistemático de fraude em contratos de tapa-buraco da capital, com manipulação de medições e pagamentos por serviço não executado. Não importa, para o argumento, o desfecho judicial de cada acusado; importa o desenho. Dinheiro público arrecadado do contribuinte de Campo Grande que, na hipótese da investigação, escorre por um ralo montado dentro da própria máquina. Some-se a isso o caso da TI Buriti: a culpa, como já se discutiu aqui, não é exatamente dos Terena nem dos produtores, mas de uma União que reconheceu a área e, em seguida, parou de decidir, deixando que o vácuo do Estado se resolvesse no fogo. Em um caso o Estado extrai; no outro, ele se omite. Os dois são a mesma face de um poder público que não existe para servir, e sim para se servir.
Passe às elites. O caso do desembargador Divoncir Maran é didático justamente por unir a toga ao boi. Segundo a apuração do CNJ, a engenharia financeira do esquema passava por transferências de gado — e o próprio parecer oficial classifica a movimentação de bovinos como prática comum de lavagem de dinheiro, especialmente em Mato Grosso do Sul. Quem vive em Maracaju, Sidrolândia ou Naviraí conhece de longe esse tipo de operação: o dinheiro entra como cabeça de gado e sai como recibo de comerciante rural, misturando-se à atividade pecuária legítima. Aqui está a elite brasileira em sua versão sul-mato-grossense: não a do barão de engenho, mas a do agente de cúpula que usa a estrutura do estado — a pecuária, o cartório, o gabinete — para concentrar e blindar o que extrai. É a mesma lógica da velha Lei das Terras, atualizada para o século XXI.
Chegue, enfim, ao crime. MS é estado de fronteira, corredor histórico do tráfico que abastece o Sudeste, e o nome Gerson Palermo, o “Pigmeu”, chefe do PCC que rompeu a tornozeleira em menos de cinco horas após ser solto, é um lembrete de que as facções não são problema “do Rio” ou “de São Paulo”. Elas operam aqui, e operam pelo mesmíssimo método: extrair. Da droga que envenena famílias inteiras à cobrança de mercados ilegais, o crime organizado de MS é a forma mais crua do Extrativismo Cultural, a que dispensa qualquer disfarce de legalidade.
É quando se junta o tapa-buraco, o gado e a fronteira que o conceito do Livro Amarelo aparece inteiro. O Extrativismo Cultural enxerga o mundo por três premissas: que não existem valores transcendentes, que a relação entre os homens é regida apenas pela força, e que todas as coisas são recursos. Tudo, e todos, viram matéria-prima a ser extraída e queimada no altar do prazer imediato. O exemplo máximo dessa visão é a escravidão do jeito brasileiro de ser, mas a engrenagem segue viva em cada decisão que trata o cidadão de MS não como fim, e sim como fonte: fonte de imposto, fonte de voto, fonte de mensalidade, fonte de lucro.
E aqui vem a parte que mais incomoda o leitor sul-mato-grossense, porque deixa de ser sobre “os outros”. O Extrativismo Cultural não está só nas grandes operações; está nos incentivos do dia a dia daqui. Na casa de aposta que promete enriquecimento fácil ao trabalhador, no golpe do PIX que circula nos grupos de WhatsApp, no pastor que vende milagre, no coach que vende atalho, no voto trocado por um favor na época de eleição. Nenhuma dessas condutas é exclusiva do estado. Mas todas juntas formam um método, uma regra silenciosa que sussurra que não levar vantagem é fraqueza. As vítimas dessa regra têm endereço conhecido: são as que terminam num latrocínio na periferia de Campo Grande ou numa UTI superlotada no interior, longe de tudo.
Se o diagnóstico vale para MS, a saída também precisa valer. E ela explica por que reclamar do prefeito, do governador ou do desembargador, isoladamente, nunca foi suficiente. Enquanto o estado viver sob as três premissas da extração, trocar o ocupante do cargo apenas troca a mão que segura o funil. O caminho que o Livro Amarelo aponta é negar essas premissas, uma a uma: reconstruir valores que nasçam do nosso próprio solo, e não de modismo importado; valorizar o trabalho, o estudo e o esforço acima da esperteza e do atalho; e compreender que existem bens que valem por si sós — a terra bem cuidada, a dignidade de quem trabalha, a instituição que funciona —, e que não são apenas recursos a serem drenados.
Na prática, há o que o cidadão de MS pode cobrar desde já. Cobrar um Ministério Público e um Tribunal de Contas que tratem o desvio de recurso público como a fraude estruturada que ele costuma ser, e não como caso isolado. Cobrar da União que decida, de uma vez, conflitos fundiários que ela mesma deixou apodrecer, em vez de terceirizar a conta para o produtor e para o indígena. Cobrar uma Justiça que não solte chefe de facção em 40 minutos de plantão. E cobrar de si mesmo, no varejo da vida, a recusa em participar do pequeno golpe cotidiano que sustenta o grande.
O Livro Amarelo chama esse processo de restauração, e faz uma ressalva que cabe bem ao estado: restaurar não é voltar ao passado, é curar. Mato Grosso do Sul tem tudo para ser o oposto do retrato que esses casos pintam — o agro que produz, a fronteira que poderia ser ponte, a gente que trabalha. O que falta é parar de tratar o estado, e o estado de espírito, como mais um recurso a ser extraído. Da próxima vez que um caso de MS estourar no noticiário, vale a pergunta: é mais um capítulo solto, ou é, outra vez, o Extrativismo Cultural cobrando o seu pedágio?

