No domingo, dia 5 de julho, o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela seleção da Noruega, por 2 a 1, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Haaland, atacante norueguês, fez os dois gols. Neymar descontou de pênalti nos acréscimos. Bruno Guimarães havia perdido outro pênalti mais cedo, defendido pelo goleiro Nyland. Foi a queda nas oitavas de final. A pior campanha brasileira desde 1990. Em 2030, quando o Uruguai comemorar cem anos da primeira Copa, o Brasil completará 28 anos sem título mundial. É o maior jejum da história da seleção.
Para o leitor de Mato Grosso do Sul, que talvez tenha assistido ao jogo em algum bar de Campo Grande, de Dourados ou de Três Lagoas, e que talvez esteja agora tentando entender por que perdemos, esta coluna tenta oferecer uma leitura ampliada do que aconteceu. Não como análise tática. Como retrato de época. Porque o que ficou registrado no MetLife, no fundo, ultrapassa o futebol.
Vamos começar por 1994, porque é comparação inevitável. Naquele ano, o Brasil chegou aos Estados Unidos após um jejum de 24 anos sem título. A imprensa, a torcida, os cronistas esportivos criticavam duramente a seleção comandada por Carlos Alberto Parreira. Diziam que o time era feio, que o meio de campo formado por Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho era conservador demais, que Parreira havia sacrificado a arte pelo cálculo. A tática, confirmada anos depois pelo próprio Parreira, era clara: Romário e Bebeto ficavam livres na frente, e os outros oito jogadores voltavam a marcar quando o adversário tinha a bola. Um bloco de defesa. Uma trincheira. Uma decisão coletiva de vencer pelo cansaço do outro.
O Brasil ganhou. Tetracampeão. Encerrou 24 anos sem título. E deixou, para a memória nacional, uma imagem que hoje parece de outro país: a do time que treina, que sofre, que aceita a chatice de vencer sem espetáculo, que abraça a disciplina antes do brilho. A geração de 1994 é, em boa parte, a geração que nasceu no fim dos anos 60 e nos anos 70, forjada em um Brasil de inflação alta, de fábrica, de escola sem TikTok. Um Brasil boomer. Aquele em que carreira se construía com paciência e reputação exigia tempo de casa.
Salte agora para 2026. A seleção convocada tinha Neymar, jogador com passagem recente pelo exterior que ex-companheiros da própria seleção chegaram a chamar de “férias remuneradas”, contundido crônico, sem ritmo europeu. Tinha jogadores da Europa que ocupam mais tempo com ensaios fotográficos, contratos publicitários, presenças em podcasts, apadrinhamento de marcas de bebida e videoclipes do que com treinos táticos. Tinha, sobretudo, uma cultura de imagem que substituiu, aos poucos, a cultura de resultado.
Não se trata de dizer que os jogadores da atual seleção são ruins. Têm talento. O ponto é outro. É que a geração de Neymar foi formada em um Brasil profundamente diferente do Brasil de 1994. É a geração dos millennials tardios e dos primeiros Z, criados na base da internet como campo de brilho. Aprenderam que audiência vale mais que resultado, que patrocinador é a nova federação, que curtida vira convite, que documentário na Netflix aos vinte anos é ativo maior do que campanha na Champions. E, ao aprender isso, deixaram de aprender, ao longo dos anos, a marcar, a voltar, a defender bola dividida, a esconder a bola no canto do campo enquanto o cronômetro faz o resto.
O paralelo geracional, aliás, ultrapassa o futebol. Vale para o país inteiro, incluindo Mato Grosso do Sul. Em qualquer setor da vida econômica sul-mato-grossense, o mesmo contraste se repete. De um lado, o produtor rural de 60 anos que acordou às 5 durante 40 anos, plantou soja, colheu, replantou, aguentou seca, aguentou geada, aguentou preço baixo, construiu patrimônio. De outro, o filho ou neto que quer virar influencer agro. De um lado, o comerciante da Rua 14 de Julho que abriu a loja em 1985 e ainda hoje puxa o rodo antes de abrir as portas às sete e meia. De outro, o herdeiro que quer transformar a loja em experiência de shopping com café. De um lado, o médico da UPA que atendeu 40 pacientes no plantão. De outro, o influencer digital que ensina “como médico ficar rico em cinco anos”. O contraste não é maldade. É consequência de duas éticas distintas convivendo no mesmo país, no mesmo estado, na mesma família.
O ponto que a Copa deixa é simples e desconfortável. Quando o Brasil precisa de resultado prático, em qualquer esfera, seleção ou empresa, quem entrega são os que já pagaram o preço do tédio. Quem não pagou perde. Aprende que perder também vira conteúdo. E segue.
Isso é ruim para o esporte, mas é pior para o país. Porque, ao contrário de uma partida de futebol, a construção de uma carreira, de uma empresa, de um projeto público, não termina em 90 minutos. Termina em anos. E anos exigem sacrifício acumulado, não brilho isolado. Em MS, o produtor rural sabe. O comerciante da rua sabe. O professor de escola pública sabe. A trabalhadora doméstica sabe. É aos filhos e netos deles que os artigos como este são dirigidos.
Vale um esclarecimento importante. Este texto não tem simpatia especial pela chamada “geração boomer” nem antipatia pela chamada “geração Z”. As duas têm virtudes e defeitos. O boomer criou a estrutura de fábrica que sobrevive. Também criou a burocracia que trava tudo. O zeta criou o influenciador. Também criou possibilidades de trabalho e criatividade que não existiam. O que se cobra aqui é o reencontro com uma virtude antiga e universal, que atravessa gerações: a virtude do trabalho continuado, do foco, da disciplina de longo prazo. Sem isso, nem seleção brasileira volta a levantar taça, nem empresa sul-mato-grossense atravessa mais um ciclo.
Neymar comemorou o aniversário das filhas em Mangaratiba após à queda. É direito dele. A Noruega enfrenta as quartas contra a Alemanha. Também é direito dela. A pergunta que fica para o Brasil, e por extensão para MS, é a mesma. O que faremos ao longo desses quatro anos que nos separam do Mundial de 2030? Cortaremos festas, ligaremos a chave do treino, aceitaremos ser carrancudos por mais tempo? Ou seguiremos gravando reels, contratando assessor de imagem, esperando que o carisma cubra a falta de suor?
O placar do dia 5 de julho tem um lado numérico (2 a 1) e um lado moral. O primeiro está registrado nos anais da CBF. O segundo ainda está por ser escrito. Cabe ao brasileiro comum, ao sul-mato-grossense comum, decidir qual capítulo ele quer estar sendo, agora, em julho de 2026.
Voltar a ser Dunga, sem virar mala. Este é o convite. Não é fofoca de futebol. É análise de país. E os dois anos que virão, dizem os que já viveram esse enredo, valem mais do que os dez anos passados.

