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    Relembre a trajetória de Alcides Bernal, da quebra da hegemonia em Campo Grande à cassação e prisão

    O ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal morreu na madrugada desta segunda-feira (13), vítima de um infarto provocado por uma trombose em uma artéria do coração. A morte ocorreu um dia antes de seu aniversário de 61 anos. Preso preventivamente desde março deste ano, Bernal estava internado após passar por uma cirurgia cardíaca, voltou ao Presídio Militar, mas sofreu um novo infarto durante o fim de semana e não resistiu após ser encaminhado novamente à Santa Casa.

    A morte encerra uma trajetória marcada por ascensão meteórica na política sul-mato-grossense, uma gestão turbulenta na Prefeitura da Capital, a cassação do mandato e, nos últimos meses, pela prisão em decorrência do assassinato do auditor fiscal Roberto Carlos Mazzini.

    Natural de Corumbá, Bernal formou-se em Direito e conquistou notoriedade como radialista em Campo Grande. A popularidade nos microfones abriu caminho para a vida pública. Em 2004, foi eleito vereador pelo PMN com 4.772 votos. Dois anos depois, tentou disputar uma vaga na Assembleia Legislativa, mas teve a candidatura considerada inapta.

    Nas eleições de 2008, foi reeleito vereador como o mais votado da Capital, recebendo 12.294 votos. O desempenho consolidou seu nome na política estadual e, em 2010, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul com 26.156 votos.

    O grande salto na carreira ocorreu em 2012, quando disputou a Prefeitura de Campo Grande. Após chegar ao segundo turno, Bernal venceu e encerrou uma hegemonia de aproximadamente duas décadas do grupo político ligado ao então PMDB na administração da Capital. A vitória foi considerada uma das maiores surpresas da história política do município.

    Já no exercício do mandato, Bernal enfrentou dificuldades para formar maioria na Câmara Municipal. Eleito por uma coligação reduzida, passou a conviver com sucessivos conflitos com os vereadores e também rompeu relações com antigos aliados, ampliando a crise política em torno da administração.

    Os primeiros meses de governo também coincidiram com uma grave epidemia de dengue. Somente nos primeiros 24 dias da gestão foram registrados mais de 13,4 mil casos da doença, levando a Prefeitura a decretar situação de emergência para tentar enfrentar o colapso na saúde pública.

    Em março de 2014, pouco mais de um ano após assumir o cargo, Bernal tornou-se alvo de uma comissão processante instaurada pela Câmara Municipal. Os vereadores apontaram supostas irregularidades em contratos emergenciais firmados durante a epidemia, além de questionamentos sobre remanejamentos orçamentários realizados sem autorização legislativa e falta de transparência administrativa.

    Naquele mesmo ano, Bernal tornou-se o primeiro prefeito cassado da história de Campo Grande. A disputa, entretanto, continuou no Judiciário. Após decisões liminares conflitantes, ele conseguiu retornar ao cargo em agosto de 2015 por determinação do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

    Mesmo de volta ao comando da Prefeitura, o desgaste político refletiu nas urnas. Em 2016, tentou a reeleição, mas terminou a disputa em terceiro lugar, com cerca de 111 mil votos, ficando fora do segundo turno vencido posteriormente por Marquinhos Trad. Antes disso, em 2014, também havia disputado uma vaga ao Senado, encerrando a eleição na terceira colocação com pouco mais de 204 mil votos.

    Após deixar a Prefeitura, Bernal não conseguiu retomar protagonismo político. Em 2018, tentou concorrer ao cargo de deputado federal, mas teve a candidatura considerada inapta em razão da inelegibilidade decorrente da cassação.

    Nos últimos anos, voltou ao noticiário por questões judiciais. Em outubro de 2025, a Justiça determinou sua retirada de uma fazenda localizada em Sidrolândia por inadimplência.

    A situação mais grave ocorreu em 24 de março de 2026, quando Bernal foi preso acusado de matar o auditor tributário Roberto Carlos Mazzini. O crime aconteceu em um imóvel na Avenida Antônio Maria Coelho que anteriormente pertencia ao ex-prefeito e havia sido adquirido pela vítima em leilão judicial. Segundo as investigações, Mazzini compareceu ao local acompanhado de um chaveiro para tomar posse do imóvel quando foi atingido por pelo menos dois disparos de arma de fogo. Após o crime, Bernal apresentou-se espontaneamente à polícia e permaneceu preso desde então.

    Durante a prisão preventiva, o ex-prefeito ingressou com diversos pedidos de liberdade, todos rejeitados pela Justiça. Um dos episódios de piora em seu estado de saúde ocorreu poucas horas depois de o Superior Tribunal de Justiça negar um dos habeas corpus apresentados por sua defesa.

    No andamento da ação penal, Bernal foi pronunciado para ser submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri por homicídio qualificado, acusado de agir mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e por meio considerado cruel, além da incidência de causa de aumento de pena em razão da idade de Roberto Carlos Mazzini, que tinha mais de 60 anos. Ele também foi pronunciado pelo crime de porte ilegal de arma de fogo relacionado a um revólver calibre .38 Special, enquanto a prisão preventiva foi mantida pela Justiça.

    Com a morte, a trajetória de Alcides Bernal chega ao fim marcada por momentos de forte popularidade, pela eleição que alterou o cenário político de Campo Grande, pela cassação inédita de seu mandato e pelo desfecho trágico enquanto respondia criminalmente pelo homicídio do auditor tributário Roberto Carlos Mazzini.

    Redação

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