Com 99,6% da tilápia de MS exportada para os EUA, empresários temem prejuízos com nova taxação de Trump. Produção de carne para o mercado americano também foi suspensa.
Empresários sul-mato-grossenses do setor de proteínas enfrentam um cenário de incerteza e apreensão após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que determinou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A medida, prevista para entrar em vigor a partir de 1º de agosto, pode impactar fortemente a economia de Mato Grosso do Sul, que tem grande parte de sua produção voltada ao mercado norte-americano.
Segundo a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), 99,6% da tilápia produzida no estado é exportada para os EUA, movimentando cerca de US$ 3,2 milhões. Com a nova tarifa, exportadores já iniciaram conversas com parceiros norte-americanos para tentar renegociar contratos e reduzir os danos.
“Estamos conversando com os nossos clientes para encontrar alternativas. Ainda não sabemos se teremos que renegociar preços ou se eles vão repassar parte do aumento ao consumidor”, explica José Charl Noujaim, gerente de exportação de uma indústria do setor no estado.
Exportação em risco e pressão no mercado interno
A maior preocupação das indústrias é o acúmulo de estoques e a inviabilidade financeira da produção. No frigorífico onde Noujaim atua, 25% da produção mensal, cerca de 250 toneladas é destinada aos EUA, principalmente na forma de filé de tilápia resfriado, com logística aérea rápida e de alto custo.
Apesar de o consumidor brasileiro poder encontrar tilápia mais barata nas prateleiras, o cenário é negativo para a indústria. “Reduzir o preço torna a produção inviável, e todo estoque parado gera despesas adicionais”, alerta o executivo.
De acordo com o Anuário da Piscicultura 2024, da Peixe BR, Mato Grosso do Sul é o 5º maior produtor de tilápia do Brasil e ocupa a 8ª posição na criação de peixes de cultivo. O estado abateu 16,8 milhões de peixes entre janeiro e agosto de 2024, um aumento de 67% em relação ao mesmo período de 2023.
Carne bovina também sofre impacto e frigoríficos suspendem produção para os EUA
O setor de carne bovina também sente os efeitos da medida americana. De acordo com o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul (Sincadems), frigoríficos como JBS, Naturafrig, Minerva Foods e Agroindustrial Iguatemi já suspenderam a produção voltada exclusivamente para exportação aos EUA.
Segundo o vice-presidente do sindicato, Alberto Sérgio Capucci, a paralisação foi necessária para evitar o envio de cargas que seriam taxadas. “Se produzirmos agora, a carne chegará aos EUA já com a nova tarifa em vigor. Isso torna a operação inviável financeiramente”, explica.
A carga de carne enviada aos EUA leva cerca de 30 dias para chegar ao destino. Por isso, cargas despachadas agora já seriam impactadas pela tarifação. O acúmulo de carne que seria exportada preocupa tanto os empresários quanto o governo do estado. “Já há volumes estocados que não poderão chegar a tempo e precisam ser realocados para outros mercados”, disse Capucci.
Governo de MS busca alternativas
O secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, afirmou que o governo estadual acompanha de perto a situação e já estuda novos mercados para a carne e a tilápia de MS, como Chile e Egito. No entanto, ele pondera que a realocação exige um processo cuidadoso, com análise de preços e logística.
“O que nos preocupa é o curto prazo. Estamos correndo contra o tempo para evitar o acúmulo de estoques e garantir a competitividade dos nossos produtores”, destacou.
Enquanto as negociações seguem, o mercado interno poderá se beneficiar com maior oferta e possíveis quedas de preços de proteínas como peixe e carne bovina. No entanto, especialistas alertam que o reflexo pode ser momentâneo, e o excesso de oferta pode gerar desequilíbrios na cadeia produtiva e afetar empregos no setor.
Com a tarifa prestes a entrar em vigor, a expectativa do setor produtivo é de que haja avanço nas tratativas diplomáticas entre os governos de Brasil e Estados Unidos. Até lá, os empresários sul-mato-grossenses lidam com incertezas, ajustes de produção e o risco de prejuízos bilionários.

