Paris viveu neste domingo (28) uma cena rara em sua história recente. Entre mil e 1.500 pessoas ocuparam a Place de la Nation, no fim da tarde, em um ato que misturou homenagem, denúncia e afirmação pública da fé cristã. A mobilização, convocada sob o título de “Marche pour la paix et contre la christianophobie” em português “Marcha pela paz e contra a cristianofobia (cristofobia)”, foi motivada pelo assassinato de Ashur Sarnaya, refugiado assírio-caldeu em cadeira de rodas, morto a facadas em 10 de setembro em Lyon enquanto transmitia ao vivo nas redes sociais.

O crime, classificado pelos organizadores como motivado por ódio religioso, acendeu um alerta e serviu de catalisador para o que chamaram de uma “mobilização inédita”. Pela primeira vez, católicos, protestantes e ortodoxos marcharam juntos contra a cristianofobia na França.
Vozes e objetivos
Segundo Antonio Sedaros, um dos responsáveis pela marcha, “um dos objetivos deste rassemblement é mostrar que existimos e que as perseguições contra os cristãos são reais”. O discurso é reforçado por números da ONG Portes Ouvertes, que aponta mais de 360 milhões de cristãos vivendo sob perseguição no mundo em 2025. Na França, os últimos anos registraram assassinatos, incêndios e vandalismo em igrejas, em episódios que raramente conquistaram espaço na grande imprensa.

O ato também deu visibilidade ao drama histórico dos assírios. Discursos lembraram o genocídio de 1915, massacres no século 20 e a perseguição imposta pelo Estado Islâmico, que destruiu aldeias, sequestrou mulheres e profanou igrejas. A mensagem repetida na praça foi clara: “a fé não pode ser uma sentença de morte”.
Rostos da organização
A mobilização foi conduzida por jovens cristãos que transformaram influência digital em palco físico. Antonio Sedaros, copta ortodoxo de origem egípcia; Constant Sessou, católico francês de origem beninense; e o pastor evangélico Saïd Oujibou, autor e mediador religioso, estiveram à frente do ato. O trio simbolizou a união de diferentes tradições cristãs em torno de uma causa comum, sem bandeiras partidárias ou interesses paralelos.

Um recado à sociedade
O caráter pacífico do encontro foi repetido à exaustão: longe da vingança, perto da fraternidade. Ainda assim, a marcha foi mais do que um gesto simbólico. Ao reunir centenas de pessoas em Paris, conseguiu furar o silêncio em torno da cristianofobia, termo frequentemente ignorado no debate público francês.

“Unidos pela fé, unidos pelo povo”, foi uma das frases que ecoou entre cartazes e cânticos. No centro da mobilização, o nome de Ashur Sarnaya foi lembrado como mártir moderno, cuja morte expôs a ferida ainda aberta da violência contra cristãos.

No fim, a Place de la Nation se transformou em altar improvisado: um espaço onde a memória, a denúncia e a fé se encontraram. O desafio agora é saber se essa marcha ficará restrita a um domingo de setembro ou se marcará o início de uma nova etapa no debate sobre liberdade religiosa na França.

