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    Em defesa do professor “tóxico” da faculdade de Direito em Mato Grosso do Sul

    Quem cobra leitura virou “exigente demais”, quem reprova virou “rígido”, quem desafia virou “ultrapassado”. Enquanto isso, MS multiplica cursos privados de Direito que mal aprovam um terço dos próprios alunos na OAB. O estado precisa de mais professores “tóxicos”, e o leitor sul-mato-grossense precisa entender por quê.

    A polêmica começou pequena, num carrossel de Instagram da professora Beatriz Bonadiman, e cresceu rápido. A tese era simples: o ensino superior brasileiro precisa de professores “tóxicos”. A palavra entre aspas dói propositalmente. Bonadiman não defende abuso, autoritarismo ou humilhação. Defende o professor que cobra leitura, exige dedicação, mantém critério e reprova quando precisa, mesmo sabendo que será chamado de “rígido”, de “ultrapassado”, de “exigente demais”. A provocação fez sentido para muita gente, e em especial para quem acompanha de perto o que vem acontecendo com um curso específico no Brasil e em Mato Grosso do Sul. Esse curso se chama Direito.

    Comecemos pelo cenário nacional, porque ele explica o resto. Em 1996, quando entrou em vigor a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Brasil tinha 160 cursos de Direito. Em 2001, cinco anos depois, já eram 505. Hoje, dependendo da fonte consultada, o país conta com algo entre 1.755 e 1.900 cursos da mesma graduação. Em menos de duas décadas, o crescimento foi de mais de 700%. Em 2018, num único ano, o Ministério da Educação autorizou mais de 313 novas instituições de ensino superior, com mais de 25 mil novas vagas. Para efeito de comparação, na história educacional brasileira recente, nenhum outro curso superior cresceu tanto, em tão pouco tempo, com tão pouco controle de qualidade.

    A pergunta que cabe é o que está saindo dessa máquina. A resposta vem da própria Ordem dos Advogados do Brasil. Em um universo de mais de 1.900 cursos de Direito, apenas cerca de 198 recebem o Selo de Qualidade OAB Recomenda, ou seja, cerca de 10% das faculdades têm o aval da entidade que regulamenta a profissão para a qual elas formam. Nove em cada dez instituições aprovam menos de um terço dos próprios alunos no Exame de Ordem. Apenas 5,4% das faculdades conseguem aprovar ao menos metade.

    E Mato Grosso do Sul, neste mapa? O estado é, infelizmente, um bom retrato do que está acontecendo. Quando se separam as taxas de aprovação no Exame de Ordem por instituição, três nomes saltam à frente, e os três são universidades públicas do estado, com índices que vão de cerca de 43% a pouco mais de 60% de aprovação no Exame de Ordem. As únicas instituições de ensino superior de MS que receberam o Selo de Qualidade OAB Recomenda são, justamente, públicas. As demais, esmagadoramente privadas, ficam abaixo dos 30%, com algumas das maiores ofertas do estado aprovando pouco mais de 28% dos formandos.

    Sejamos diretos com o leitor sul-mato-grossense que paga mensalidade ou que paga imposto: o curso de Direito que de fato forma, em MS, é majoritariamente o público. Aquele em que o aluno entra por vestibular ou Sisu, é cobrado por professor concursado, é desafiado por banca exigente e, ao final, sai com chance real de aprovar no exame da profissão. As particulares de qualidade existem, sim, mas formam minoria. A maior parte do que se chama de “faculdade de Direito” em MS é, em termos práticos, máquina de mensalidade, com produto final que o mercado já aprendeu a desconfiar.

    E aqui o carrossel de Beatriz Bonadiman se encaixa como uma luva. O que sustentou essa explosão de cursos médios, em MS e no Brasil, foi exatamente a cultura da facilitação. A leitura virou opcional. A reprovação virou ofensa institucional. O critério virou negociável. O trabalho final virou “personalizado”. O professor exigente virou peça administrativa difícil. 

    O cidadão sul-mato-grossense que sustenta esse sistema, seja como pagador de mensalidade, seja como contribuinte que financia o ensino público, tem direito de exigir mais. A começar pelo direito de cobrar do MEC que pare de autorizar novos cursos privados de Direito em municípios onde a relação de bacharéis por habitante já é desproporcional. Em segundo lugar, o direito de cobrar do governo estadual e da OAB seccional uma fiscalização contínua dos cursos em funcionamento. Em terceiro lugar, o direito de não ser intimidado a chamar de “tóxico” o professor que, nas universidades do estado, ainda insiste em puxar leitura, mandar trabalho difícil, reprovar quando precisa.

    A frase mais útil do carrossel da Bonadiman, e cabe repetir aqui, é a comparação simples com o esporte. Ninguém chama um treinador de tóxico por exigir desempenho. O treinador grita, corrige, pune e premia, e o jogador entende que aquela exigência é o que o levará à seleção. Por que, num curso de Direito, o professor que cobra a mesma exigência é tratado como inimigo do aluno? A resposta brasileira de 2026 é desconfortável: porque a inversão de papéis virou negócio. Quanto mais o aluno é tratado como cliente, mais o curso é tratado como produto. E quanto mais o curso é tratado como produto, menos ele se compromete com o que costumava ser sua razão de existir, que era formar profissional pronto, e não emitir diploma bonito.

    A propósito, o efeito disso na vida concreta de MS é grave e silencioso. Falta delegado especializado, falta procurador qualificado, falta advogado público bem preparado, falta defensor público com domínio técnico. Sobram bacharéis. A diferença entre as duas categorias, bacharel e profissional pronto, está exatamente naquele professor que, no terceiro semestre, mandou ler 200 páginas de manual no fim de semana, e que, na semana seguinte, reprovou metade da turma porque ninguém havia lido. 

    Defender o professor exigente em MS, em síntese, não é defender autoritarismo, humilhação ou abuso de poder. É defender o que sobra de razão em um sistema educacional que está vendendo papel onde antes formava gente. É defender o pagador de mensalidade que merece sair com profissão de verdade. É defender o estado de MS, que precisa de mais juízes, promotores, procuradores e advogados competentes para enfrentar tudo o que já se sabe que enfrenta. A próxima vez que ouvir, no corredor de uma faculdade de Direito daqui, a frase “esse professor é tóxico”, vale parar e perguntar: ele é tóxico mesmo ou ele é, apenas, o último que ainda se importa? A resposta, normalmente, é a segunda. E ela explica, talvez melhor do que qualquer outra coisa, por que o Direito de MS precisa, com urgência, de mais professores assim.

    Rodrigo Correa

    Advogado e professor de Direito Tributário na UCDB

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