Entre apagões, escândalos, contratos bilionários e decisões políticas, o Brasil construiu um sistema onde os lucros são privados, mas os prejuízos quase sempre acabam na conta de luz da população.
O setor elétrico brasileiro atravessa uma das maiores crises de credibilidade de sua história. Trinta anos após a criação da ANEEL, a promessa de uma regulação técnica, transparente e voltada à proteção do consumidor parece cada vez mais distante.
O recente caso do chamado “Eletrolão”, envolvendo o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), estimado em mais de R$ 500 bilhões em contratos futuros, expôs problemas estruturais acumulados ao longo de décadas: influência política, contratos controversos, captura regulatória, socialização de prejuízos e decisões que tornam a energia cada vez mais cara. Em um país com uma das maiores capacidades de geração renovável do planeta, a pergunta é inevitável: por que continuamos pagando uma das contas de luz mais caras do mundo?
Em 2001, o Brasil viveu um dos momentos mais traumáticos da história do setor elétrico. O apagão e o racionamento de energia expuseram falhas de planejamento, ausência de investimentos e incapacidade de antecipar problemas estruturais. Mais de duas décadas depois, o país não enfrenta falta de energia. Mas continua enfrentando algo igualmente preocupante: um sistema cada vez mais caro, complexo e distante do consumidor. O apagão ficou para trás. O que surgiu em seu lugar foi um modelo onde quase todo erro, desequilíbrio ou decisão equivocada acaba sendo repassado para a conta de luz.
Quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) foi criada em 1996, a proposta era clara: construir uma agência técnica, independente e capaz de proteger o consumidor dos excessos políticos e econômicos. Ao longo dos anos, porém, o sistema acumulou encargos, subsídios, contratos especiais, bandeiras tarifárias, revisões extraordinárias e uma série de mecanismos que tornaram a tarifa brasileira uma das mais difíceis de compreender. O consumidor deixou de pagar apenas pela energia consumida e passou a financiar erros de planejamento, contratos caros, subsídios cruzados, decisões governamentais e disputas regulatórias. Criou-se uma lógica perigosa: quando há lucro, ele permanece com os agentes do setor; quando há prejuízo, ele é distribuído entre milhões de brasileiros.
Foi nesse ambiente que surgiu o chamado “Eletrolão”. O termo ganhou força após o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), que poderá gerar compromissos financeiros superiores a R$ 500 bilhões ao longo dos contratos. O objetivo oficial do leilão era garantir segurança energética para o país. O problema é que grande parte dessa contratação ocorreu por meio de termelétricas, justamente uma das fontes mais caras da matriz elétrica brasileira. Especialistas passaram a questionar os critérios técnicos adotados, a contratação de usinas em regiões sem infraestrutura adequada, a necessidade real de parte da potência contratada e os impactos tarifários futuros. O Ministério Público Federal recomendou a suspensão do processo alegando potenciais prejuízos bilionários aos consumidores. Técnicos do Tribunal de Contas da União também apontaram preocupações relacionadas aos custos e aos efeitos econômicos dessas contratações. A principal crítica é simples: contratos assinados hoje poderão gerar pagamentos por quinze anos ou mais, mesmo que parte dessas usinas opere abaixo da capacidade ou sequer seja necessária em determinados períodos.
Mas o LRCAP não criou esse problema. Apenas revelou um padrão que vem se repetindo há décadas. Um exemplo recente foi a aquisição da Amazonas Energia pela Âmbar Energia, empresa do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. A distribuidora acumulava graves problemas financeiros, passivos bilionários e dificuldades operacionais. Após a aquisição, medidas regulatórias, decisões governamentais e alterações legislativas passaram a viabilizar a recuperação da empresa. Entre elas, ganhou destaque a MP 1304 e mecanismos destinados ao tratamento de dívidas acumuladas pela concessionária. Os defensores argumentam que a medida evitou um colapso energético na região Norte. Os críticos, por outro lado, apontam que parte significativa dos riscos e passivos acabou sendo absorvida pelo sistema elétrico, enquanto os ativos recuperados permaneceram sob controle privado. Independentemente da interpretação, o episódio reforçou uma percepção crescente no mercado: quando grandes grupos enfrentam dificuldades, surgem soluções regulatórias; quando a conta chega, ela costuma ser dividida entre os consumidores.
Essa percepção não nasceu agora. O setor elétrico brasileiro acumula um longo histórico de escândalos, investigações e denúncias envolvendo grandes obras de infraestrutura, hidrelétricas, linhas de transmissão e contratos públicos. Diversas operações policiais revelaram casos de cartelização, superfaturamento, corrupção e favorecimento político em empreendimentos energéticos. Embora a ANEEL não tenha sido protagonista desses escândalos, a agência chega aos seus 30 anos carregando o desgaste de ter assistido à multiplicação dessas distorções sem conseguir impedir que seus custos fossem incorporados ao sistema. A crise da ANEEL não é financeira. É institucional. É uma crise de confiança.
O mais contraditório é que o Brasil possui todas as condições para oferecer energia mais barata. Temos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Somos líderes globais em geração distribuída solar. Possuímos abundância de água, vento, sol e tecnologia. A energia solar fotovoltaica, especialmente, demonstrou que é possível reduzir custos, descentralizar a geração e aumentar a competitividade econômica. O que falta não são recursos naturais. Falta governança. Falta transparência. Falta coragem política para revisar privilégios, eliminar subsídios ineficientes e impedir que contratos bilionários sejam firmados sem o devido escrutínio público.
A boa notícia é que esse cenário pode ser revertido. O Congresso Nacional tem a oportunidade de liderar uma ampla modernização do setor elétrico, promovendo mais concorrência, mais transparência e mais eficiência regulatória. A ANEEL precisa recuperar sua missão original de proteger o consumidor. E o setor elétrico precisa voltar a servir ao desenvolvimento nacional, e não apenas à manutenção de estruturas que se acostumaram a repassar seus custos para a população.
A conta de luz do brasileiro pode ser mais barata.
Mas isso dependerá de decisões políticas corajosas, de instituições mais comprometidas com o interesse público e da disposição de enfrentar um modelo que, há muito tempo, transformou o consumidor no financiador permanente do setor elétrico brasileiro.

